João chegara tarde demais. Bêbado demais, triste demais. Consumido. Roupas polidas, olhar distante. Pega a última garrafa de uísque da estante. Bebe. A vida fizera dele um homem atrasado. Ele liga o som, senta no velho sofá sem prestar atenção à letra da música de Chico Buarque[1] que retratava aquela sala, aquela vida e o seu olhar: Os momentos bons e as horas más que a memória coa... Pensa em tudo de novo como se vivesse de lembranças e amarguras. Acende um cigarro, recebe uma lágrima no rosto e revela sua tristeza ao olhar a foto de Carolina pendurada na parede em frente a si. Mas esse João nem sempre foi assim.
Madrugada normal, até que no meio do público uma mulher não é mais uma a mais entre tantas. João viu e nunca mais esqueceria aquele rosto. Cantou e tocou especialmente para ela a música da noite, todas as músicas e todas as noites seriam dela dali por diante. Até então não era sentimento raro, era atração, que se concretizou em desejo naquela mesma noite.
Ela, que não entendia nada de paixão irresistível, trêmula se entregou àquela. Entre tropeços e pressa tiveram um ao outro com a intensidade dos primeiros momentos. Nem ele, nem ela tinham a convicção do próximo dia. Mas o sentimento da eternidade. Carinhos e sorrisos se seguiram e da mulher atraente que esteve na cama de João surgiu outra, aquela outra mulher escondida, que deve aparecer pela manhã e sorrir trazendo alento e o sentimento “de sempre” ao coração do homem.
Entre uma música e outra, João não mais beijava sem amor. A “sua” lhe esperava e nos olhos dela ele encontrava pureza, aprovação e planos. A malícia que surgia a dois, a sós, era acompanhada pelas músicas preferidas de Carolina. Enquanto ouviam, representavam com seus corpos inteiramente nus os versos de amor e de entrega.
A “tal inspiração”, esse cavalo sem sela, começou a galopar em seu ritmo normal e ele compunha a palavra que vivia: o amor. O casamento, as famílias reunidas decorreram de maneira natural e feliz. E o cotidiano era assim, sem sobressaltos, nos primeiros anos. Nos vestidos, nos sorrisos, nas ideias, nas comidinhas e vinhos, na satisfação em saber que a “sua” era a mais linda e geniosa das “Carolinas”.
Mas Carolina decidiu ocupar suas noites estudando, enquanto João passava as suas cantando. Fez amigos. Márcia e Luís eram mais que companheiros de curso, era a ligação de Carolina com a sua mais nova paixão: o cinema. Márcia, embora fosse sempre meiga e solícita as necessidades da colega, demonstrava certa inveja. A mulher de João não confiava em Márcia por que sabia que havia ali uma cobiça por seu marido, por sua vida, por sua felicidade.
As músicas de João passaram a ter mais uma palavra: o ciúme. Composições melhores sim. Mas a vida não. Compor ciúme é diferente de vivê-lo. João tinha medo da que a mulher que o visitava na madrugada não fosse só “sua”. Tinha ódio quando pensava em Carolina distribuindo sorrisos na tal faculdade de cinema. A vida, quando é assim, é difícil.
Carolina notava a tal diferença nas canções e na vida que tinha com João. Mas continuava amando-o durante o dia e desejando-o durante a noite com a mesma intensidade das melodias de Chico. No entanto, a insegurança de João ampliara-se desde que a viu com Luís, ao buscá-la sem avisar, propositadamente. Ele dissimulou, mas não gostou. Enquanto João disfarçava seu ciúme, Luís não escondia suas pretensões amorosas e Carolina fingia não enxergar nem um nem outro sentimento, enquanto compunha sua vida ao lado de quem amava. O fingimento de Carolina resistiu até o último instante da calma de João. Foi nesta primeira briga que o amor começou a declinar e as composições a rarear.
A mãe de João tentou aconselhá-lo. “Meu filho, o ciúme é um mal de raiz. Ou você confia em sua esposa, ou isso não termina bem. A Carolina é uma mulher direita, deixa-a estudar, confia no amor de vocês.” Em vão dona Mercedes interveio, o ciúme estava enraizado na alma de João assim como o amor que tinha por Carolina. Embora exagerada, a desconfiança não era infundada, havia um interesse unilateral com tendências a se proliferar.
A vida de João agora era atormentada por esta palavra tão petulante e recorrente: o ciúme. Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz. E atrás dessa mulher mil homens sempre tão gentis. Já não aguentava mais em todos os lugares daquela casa os ecos da traição de Carolina. Músicas, frases deslocadas do contexto, sorrisos, telefonemas, comentários. Tudo remetia a tal infidelidade.
Um telefonema anônimo diz a João o que ele já suspeitava, acrescentando endereço e maldade. Na mente confusa, a mistura de ódio, insegurança e desilusão o cegava e o fazia esquecer os alicerces daquele amor. Aluga um carro e segue Carolina, enquanto ela dirige para a casa de Luís ouvindo Chico dizer melodiosamente que os seus olhos fundos guardam tanta dor... Seguia com calma, não sabia que a “Carolina” era também ela. Ela não encontraria homem nenhum às escondidas naquele dia, nem em nenhum outro. Muito menos Luís. Ele não compunha como João, nem saberia amá-la como ele.
Márcia movida pela inveja e interesse por João armara toda aquela situação. Ela sabia da paixão de Luís por Carolina. Queria um amor como o que a amiga tinha e achava muito injusto com ela e com Luís, que João e Carolina continuassem juntos. Ligou para Luís e convenceu-o a participar da armação. Avisou à Carolina do encontro, motivado por um trabalho acadêmico, ao passo que ligou anonimamente para João contando sobre a falsa traição. O flagrante estava armado.
Luís já havia se declarado à Carolina, mas diante de sua recusa prometeu que nunca mais tocaria no assunto. Dizia que estava no amor que sentia a força para esquecer, e que entendia a postura da mulher de João, em não traí-lo. Mas não conseguiu, a proposta de Márcia era oportuna demais e ele não perderia a chance de ter quem amava nem que fosse por uma vez. O plano era embriagar Carolina e pô-la na cama com ele. Carolina não viu que o ciúme que seu marido sentia era a porta de entrada de toda a desgraça que cairia sobre ele. Não contou a João sobre a reunião com os colegas, preferia ocultar certos assuntos para não aumentar as brigas, já frequentes, entre os dois.
Uma chuva forte começa, o ritmo muda, a música também e Carolina agora vê, vê que alguém a persegue e querendo fugir acelera o carro. João na ânsia de não perdê-la de vista acelera também e em velocidade grita sua raiva e arrependimento por ter dedicado músicas demais a quem o amou de menos.
Eis que antes de uma curva, as dúvidas já não fazem sentido e João vê o carro de Carolina chocar-se com um caminhão. O corpo dela é arremessado por alguns metros e ele não sabe o que pensar ou sentir. Carolina estava morta, morta para tudo, inclusive para o amor que nutria por João. A perda de antes era diferente desta. A outra, embora dolorosa, não era irremediável. Eis que surge uma palavra nova nas composições de João: dor.
Profunda e arrependida dor, que aumentara depois que ele descobriu toda verdade sobre a falsa traição. Dor que evoluíra para alcoolismo, maus tratos consigo e afastamento do mundo. Na plateia ele vê até hoje o rosto feliz e lindo de Carolina. Não deixa de cantar, pois nas melodias encontra novamente os beijos da amada. Canta o amor, o ciúme, o arrependimento e a espera. Aguarda o dia em que sua vida destruída pelo inebriante perfume do ciúme chegue ao fim.
[1] Durante todo o texto são citadas partes de letras de músicas de Chico Buarque, músico, dramaturgo e escritor brasileiro, a fim de ilustrar fases da vida e dos sentimentos envolvidos na história dos personagens. A fonte, invariavelmente, é o site: http://pensador.uol.com.br/


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