Não quero medir a altura do tombo, o melhor futuro é esse hoje escuro... A consciência, esta tia durona que grita nos chamando ao bom comportamento, nos impede os melhores sorrisos e os acasos mais agradáveis. Afinal, por que esse medo com o fim se ele chegará inevitavelmente... Adoro reticências, elas dão a impressão de infinito as nossas palavras. Infelizmente a vida não combina com elas...
Por que tudo que lembro hoje pela manhã é uma infância atrás do portão, uma escola sem amigas... E um sorriso amarelo. Quando a tarde chega traz com ela uma adolescência tumultuada com proibições e fugas. A noite chega me trazendo a escuridão e a dúvida de um futuro surpreendentemente melhor que o passado. Toda vez que o futuro cruza a linha que o transforma em presente traz consigo o olhar seguro de uma mulher consciente, embora frágil no olhar e na saudade das coisas que viveu.
Então, por que ler? Para entender na linguagem do outro a realidade vista por outro ângulo, para poder criticar e viver em outro tempo e lugar, para alongar a minha vida pedindo pedaços da existência alheia. Afinal, uma vida é pouco para alguém que sutilmente grita pela eternidade.
Que sentido tem falar? Bem, na última semana assisti a um recital de poesia no colégio aonde trabalho, a entonação, o sentimento e a vontade; tudo vinha diretamente a mim. Durante minhas vivências acadêmicas sempre valorizei a boa oratória dos professores e colegas. De nada adianta tanto conhecimento sem a possibilidade de uma transmissão eficaz, afinal, o saber deve ser volátil.
Escrever. Está nesse verbo o encanto dessa vida. Li em algum lugar que quando o poeta precisa explicar seu poema, então este não valerá de nada. O poema ou o poeta? Os dois. Isso explica a dificuldade encontrada nos caminhos da escrita. É preciso levar o leitor sem que ele perceba que está sendo conduzido, é preciso que o caminho tenha flores e não seja íngreme, quem está lendo precisa de fôlego. Viver. Mais que isso, entregar-se a vida. Fazer o que lhe dá prazer, dar sentido ao respirar. Ser feliz. Para isso viemos aqui. Sei que essa realidade por várias vezes podre e inadmissível nos faz regredir no prazer de viver. Mas ainda restam cores e coisas que me predem. No escuro desse futuro impreciso, caminho encontrando nessas conexões impertinentes o ceticismo necessário, a afirmação precisa, os contextos divergentes. A nossa felicidade está no conhecimento ou na ignorância, cabe a cada um escolher. Eis o que é brilhante no livre-arbítrio...


2 comentários:
Tenho lido seus textos aqui... Parabéns... Ótimas reflexões!
Obrigada...
É sempre bom compartilhar reflexões.
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